Em Pauta

A história da mulher que convivia com a pior dor do mundo

“Acordava no meio da noite com uma dor, como se fossem vários choques e fisgadas seguidas, e tremores na região da face, principalmente próximos à área dos olhos. Não conseguia comer, pentear meus cabelos, alimentar minhas plantas e, muito menos, lavar o meu rosto, já que toda vez que o tocava, sentia uma sensibilidade dolorosa incapacitante”. Esse é o relato da Sra. Iracema Corbe Fonseca, de 74 anos, que por quase dois anos conviveu com a doença conhecida por ocasionar a pior dor já registrada: a neuralgia do trigêmeo.

Atingindo de 3 a 5 pessoas em cada 100 mil por ano, com maior prevalência no sexo feminino e com idade superior a 50 anos, a neuralgia do trigêmeo caracteriza-se por uma dor súbita e intensa, geralmente de um lado da face, com choque elétrico ou espasmo muscular na distribuição dos ramos nervosos da mandíbula, maxilar e olhos.

O neurocirurgião especialista em dor pela UNIFESP, Dr. Claudio Corrêa, explica que a origem do nervo do trigêmeo é na base do encéfalo em uma estrutura denominada ponte e que faz parte do tronco cerebral. Após conexão com o gânglio trigeminal (Gânglio de Gasser), distribui-se em três ramos: oftálmico, maxilar e mandibular, inervando sensitivamente a face em toda sua porção externa e na sua porção interna (gengivas, dentes, mucosa oral, terço anterior da língua, córnea). Portanto, tem a função básica de permitir ao paciente a percepção de estímulos sensitivos nessas áreas. Também apresenta um ramo motor com inervação do masseter, músculo importante no mecanismo da mastigação.

“Em 95% dos casos, a neuralgia do trigêmeo é considerada idiopática, ou seja, sem causa orgânica definida. Nos outros 5% são desencadeadas por tumores (Schwanomas), meningeomas, metástases encefálicas, aneurisma, malformação arteriovenosa e esclerose múltipla. Recentemente, surgiram algumas hipóteses diagnósticas relacionadas a tratamentos dentários que possam causar sensibilização central dos nervos”, conta o médico.

Devido a alguns de seus sintomas inicialmente semelhantes com problemas de articulação temporomandibular (ATM) e dentário, a doença pode ter seu diagnóstico dificultado, a ponto de ser comum pessoas terem seus dentes extraídos ou serem indicadas para uso de aparelhos para bruxismo, sem necessidade e sem sucesso em seus tratamentos.

Iracema conta que, após algumas suspeitas também de outros problemas, inclusive oftalmológicos, foi orientada a procurar um neurologista, que concluiu o diagnóstico com a ajuda de uma ressonância magnética.

“O tratamento inicial foi apenas medicamentoso, mas mesmo em altas dosagens, as dores não cessavam. Não tinha qualidade de vida e não conseguia mais realizar atividades do meu dia-a-dia que me davam tanto prazer, como viajar; hobby que amo de paixão”, lembra a aposentada.

Já desanimada e sofrendo dia e noite com os choques em sua face, Iracema foi encaminhada para um neurocirurgião com experiência em um procedimento cirúrgico para curar o problema.

“Não pensei duas vezes e dias depois já marquei a cirurgia. Sentia tanta dor e desespero que só pensava em me livrar daquilo”, conta emocionada.

Segundo Dr. Claudo Corrêa, das técnicas existentes para tratar o problema, a considerada mais simples e eficaz, e que foi realizada na senhora Iracema, é a cirurgia de compressão do gânglio de Gasser. “O procedimento, minimamente invasivo, introduz um fino cateter na região trigeminal com um micro balão em sua extremidade, que é inflado ao nível do gânglio, gerando um isolamento da região nervosa, com a interrupção instantânea da dor. O procedimento tem duração média de 10 minutos, com eficácia em 98% dos casos. A técnica pode ser realizada ambulatoriamente, com o paciente recebendo alta em média duas horas após o ato operatório”, contextualiza o neurocirurgião Dr. Claudio Fernandes Corrêa.

O médico ressalta que, embora a cirurgia tenha resultado definitivo, pode ocorrer recidiva (volta) do problema em cerca de 30% dos casos, que podem ser operados novamente.

“Há pouco mais de 3 anos realizei a cirurgia e pude voltar a viver sem aquelas dores que me tiravam o sono e o prazer pela vida. Desde então nunca mais tive dor e comemoro da maneira que mais gosto: cuidando das minhas plantas e viajando ao lado da minha família”.

Informações completas sobre o tema estão disponíveis em:
Infográfico Entendendo a Neuralgia do Trigêmeo: http://bit.ly/2xrSzaE
Videocast Neuralgia do Trigêmeo: a pior dor que uma pessoa pode sentir
Dr. Claudio Corrêa: http://bit.ly/2wDxHzJ
Com mais de 30 anos de atuação profissional, Dr. Claudio Fernandes Corrêa possui mestrado e doutorado em neurocirurgia pela Escola Paulista de Medicina/UNIFESP. Especializou-se no tratamento da dor aliado a neurocirurgia funcional – do qual se tornou referência no Brasil e no Exterior.
É também o idealizador e coordenador do Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional do Hospital 9 de Julho, serviço que reúne especialistas de diversas especialidades para o tratamento multidisciplinar e integrado aos seus pacientes.
Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4734707Z5